Analisando o Digital na Pesquisa Qualitativa

Analisando o Digital na Pesquisa Qualitativa

As Maravilhas de um Mundo Sem Fronteiras

A virtualidade da interação consumidor e pesquisador revela forças bastante relevantes:

  1. Permite maior amplitude de cobertura: viabiliza trabalhar com amostras maiores, contemplando diferentes regiões do país e do mundo. Isto é especialmente importante no Brasil, um país de grande dimensão e marcado por forte regionalidade.

  2. Possibilita maior abertura na discussão e análise de estudos de caráter exploratório, como levantamento de hábitos, por exemplo: no decorrer do campo e análise das postagens em um blog ou comunidade online, o meio digital permite ao pesquisador, e em alguns casos ao próprio cliente, tirar dúvidas, sugerir novas perguntas e checar hipóteses.

  3. Favorece a adesão dos familiarizados com o meio: a internet constitui um terreno natural para muitos públicos, o que aumenta o interesse e o engajamento na pesquisa.

    Além disso, os brasileiros adoram tecnologia, e os números mostram um crescimento nas vendas de notebooks, tablets e smartphones, o que certamente terá um impacto no envolvimento da população com o meio digital.

  4. Abre espaço para colocações mais abertas: o anonimato favorece o registro de opiniões sem censura.

 

Analisando o Digital na Pesquisa Qualitativa

As Limitações de um Mundo Onde Tudo é Possível

É preciso olhar as ferramentas digitais com cautela, porque elas apontam fragilidades importantes que devem ser consideradas, quando da escolha da metodologia da pesquisa, do público a ser consultado e das perguntas a serem respondidas pelo estudo.

  1. Superficialidade das respostas: os consumidores, pelo menos os brasileiros, quando interagem de maneira autônoma com uma plataforma digital, revelam certo descompromisso na realização das tarefas e tendem a ser rasos em suas considerações, buscando sempre o caminho mais fácil – as respostas mais curtas, óbvias e pouco criativas.

    Com isso, alcançar uma profundidade produtiva nas tarefas online exige:

    • Pesquisar um público mais qualificado e com maior nível de instrução.

    • Estabelecer prazos mais longos para condução e conclusão do campo, o que vai de encontro à demanda cada vez mais crescente por resultados no curto e curtíssimo prazo.

    • Estipular um incentivo em dinheiro mais elevado, o que onera o custo da pesquisa.

    • Alocar um profissional da equipe para fazer follow up contínuo, insistindo na produção de postagens e geração de conteúdo relevante – e esta tarefa é desgastante, porque os brasileiros têm dificuldade de dizer ‘não vou fazer’ e tendem a deixar sempre tudo pra última hora.

    • Considerar a necessidade de mais estímulos: para que os participantes deem o máximo nas suas respostas é preciso um acompanhamento constante das interações, verificando a qualidade dos posts e, quase sempre, encaminhando pedidos de maiores informações para cada participante. Por não ter um moderador conectado 100% do tempo na plataforma, fica muito mais fácil para o respondente se esquivar das perguntas.

    • Priorizar as perguntas mais simples, mesmo que tenham que ser feitas em maior número, ao invés de questões amplas e complexas.

  2. Baixa qualidade dos textos: principalmente entre os públicos de menor nível de instrução, mas não somente, é comum deparar-se com textos mal escritos e com argumentações truncadas ou ilógicas, que inviabilizam uma interpretação minimamente razoável do que o consumidor registrou e tentou expressar.

    Diferentemente dos países europeus, o consumidor médio brasileiro tem dificuldade e/ou preguiça de escrever (e de ler principalmente!).

    Esta dificuldade é potencializada quando o consumidor está por conta própria em uma plataforma digital: com isso, perguntas de caráter mais filosófico ou metafórico geram afastamento e desestimulam a participação – muitos participantes desistem de participar ou simplesmente ignoram as perguntas.

  3. Baixa credibilidade das informações postadas (em comparação com as declarações in vivo): o consumidor pode (e muitas vezes o faz) buscar informações na internet antes de responder o que realmente sabe, pensa, sente ou lembra sobre um determinado tema, produto, serviço ou marca.

    Nas interações online o consumidor pesquisado tem mais espaço para racionalizações: ele elabora respostas, pesquisa assuntos, troca informações e, até mesmo, copia opiniões de outros usuários, podendo revelar perfil, pontos de vista e opiniões distorcidos.

    No universo digital o consumidor ‘cola’ pra caramba! E registra opiniões que podem refletir um conhecimento passageiro de última hora.

    Além disso, o mundo digital, por influência das redes sociais, está envolto por uma aura de aspiracionalidade, onde cada um se expressa e se mostra do jeito que quer ou que gostaria de ser visto.

    Com isso, o risco de se maquiar uma realidade é muito maior do que em um encontro físico, onde não há tempo para sustentar disfarces ou planejar respostas.

    Um terceiro fator que compromete a credibilidade dos outputs do meio digital reside no anonimato inerente do meio: em fóruns, blogs e chats o pesquisador não tem como ter certeza sobre quem está de fato interagindo com ele – o consumidor alvo? um amigo? um parente?.

    Outra questão a se considerar é o uso do meio digital para discussão de temas delicados e polêmicos, como sexualidade na adolescência: fica a questão – até que ponto os jovens, ao participarem de suas casas, não sofrem a censura dos pais em suas colocações?

  4. Impossibilidade de realizar testes que dependem dos sentidos, como avaliação de atributos organolépticos (sabor, after taste, cheiro, textura, consistência etc).

  5. Limitação do público pesquisado – infelizmente, uma parte representativa da população no Brasil ainda:

    • Não tem acesso à internet

    • Não possui computador em casa

    • Não usa internet no celular (tampouco possui um smartphone)

    • Não sabe como usar os recursos do meio online e tem dificuldade de entender sua linguagem (app, blogs, download, upload, wi-fi etc)

    • Não se sente confortável na frente de um computador

    Com isso, existe uma restrição no recrutamento – menos pessoas são elegíveis para o projeto de pesquisa.

  6. Limitação da estrutura de telecomunicações no Brasil: este aspecto é especialmente crítico no uso dos aplicativos de pesquisa para celular.

    A velocidade e a instabilidade da conexão da internet muitas vezes torna a experiência do usuário um pesadelo, com um sem fim de posts e uploads mal sucedidos.

    Por esta razão, é comum nos estudos que utilizam APP como ferramenta complementar de pesquisa, recorrer ao bom e velho e-mail para completar as tarefas dentro do limite dos prazos estabelecidos para o projeto.